O dia que não foi.

Era noite. O vento soprava por aquela praça. Manso, frio, pálido, inaudível. Se houvesse alguém ali, taparia os ouvidos para não ouvir o silencio gritante que cobria aquele lugar. Se houvesse alguém ali... Mas não havia. Assassinos, estupradores, prostitutas, marginais, drogados e traficantes, um casal de namorados, uma criança perdida, um turista desavisado, um grupo de emos unidos em sua solidão e felizes em sua tristeza, um cachorro fora de casa, um gato sem-teto, um lobisomem a espreita por trás de uma palmeira, uma feiticeira carregando uma bacia de prata, pichadores, farristas, bêbados, repórteres, cadáveres em sacos sendo enterrados por chefões da máfia russa de viajando de férias, três peregrinos esfarrapados cansados dormindo em caixas de papelão, um louco fugido do hospício que acredita ser Napoleão Bonaparte, um vigia noturno, ratos, uma nuvem de mosquitos barulhentos, uma loja 24 horas, uma sonâmbula usando uma camisola azul ridícula com jacarés cor-de-rosa, carros, caminhões, moscas rodeando pilhas de cocô de elefante, pessoas fugindo de um deslizamento, chuva, mendigos desabrigados ou um velho dormindo numa banca de revista. Mas não havia. Nem gente, banca, nuvens ou dia. Cada segundo só tocava uma nota fria da mesma musica, a mesma melodia muda do vazio, como se a praça morresse a cada instante. Em que cada pedra vibrasse em sua corrida acelerada para o mesmo lugar. E cada palmeira fosse fustigada pela tempestade que não existia. E a chuva caísse em grosas gotas que molhassem o chão. Houvesse o som, o cheiro de terra molhada. E de repente pequenos insetos vindos do nada, povoassem então a terra sem vida. Pessoas acordadas pelo som correriam para fechar suas janelas da chuva. Crianças acordadas iriam para brincar em possas d’gua e os gatos nos telhados se abrigariam sob arvores nos quintais de onde os cachorros os expulsariam. E a chuva derrubaria casebres e encheria os bueiros obrigando os ratos a correr dos então acordados gatos famintos por um lanchinho noturno. E quem sabe uma fuga em massa de um presídio naquela região provocasse a atenção de viaturas policiais e repórteres sonolentos para gravar a guerra que era travada. Talvez, e só talvez o vigia tivesse deixado a porta do quarto do louco 301 aberta e o Napoleão imaginário saísse a procura de seu cavalo e o vigia alucinado corresse para achar o fugitivo e salvar seu emprego. Não encontrando hotéis abertos três peregrinos talvez se contentassem com caixas de papelão. E vendo todo aquele rebuliço um morador da vizinhança resolvesse abrir seu bar até tarde. E confusos homens de família se entregassem à bebida. E houvesse um elefante sendo levado pra passear pelo seu treinador. Um casal de velhinhos apaixonados dariam calorosos amassos que jamais ousariam fazer a luz do dia. Quem sabe um garoto? Imaginando o que faria sua vizinha na rua a essas horas com um pijama tão ridículo. Ou carros e mais carros numa fila interminável de gente se dirigindo a praia. Ou cinco emos fugindo de um cabeleireiro furioso para salvar suas franjinhas e insistindo que não são gays deprimidos que usam preto e sim um movimento profundo e doloroso de redescoberta e emoções. E talvez fosse tudo a mesma coisa. E talvez não fosse nada. Mas não havia mais o nada. Como quem acorda de um sonho apagado, lentamente houve dia. E a manhã era como um sonho onde a única pessoa acordada naquela noite caminha sentindo ser, o único ser, no mundo. E pessoas apareciam fazendo coisas estranhas que não ousariam fazer em outra hora. E a vida morta renascia.

A exatos 203 km dessa praça alguém acordou. Abriu os olhos, levou a mão a cabeça e pensou:

- Puta merda mais que ressaca.


Conto criado por Lucas Thael, um autor que despreza a própria obra.

3 comentários:

Anônimo disse...

ahh muito bom *_*

Jéssica Andrade M. disse...

hehe, ótimo u_u

Kattharina disse...

ACHO QUE O AUTOR NÃO DESPREZE A PROPRIA OBRA, PELO CONTRARIO SE ESTA PUBLICADA NO MINIMO DEVE SER SEU MELHOR CONTO.

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